SALVADOR @ Fecomércio diz que prejuízo para comércio na Bahia superou R$ 1 bilhão - Observador Independente

BAHIA

4 de junio de 2018

SALVADOR @ Fecomércio diz que prejuízo para comércio na Bahia superou R$ 1 bilhão

Para Carlos de Souza Andrade, faltou ao Governo Federal capacidade de diálogo com os grevistas
Foto: Divulgação



Entrevista concedida ao Jornal Tribuna da Bahia


Do pequeno lojista da Baixa dos Sapateiros às grandes redes de supermercados, na capital e no interior do Estado, os prejuízos com a greve dos caminhoneiros em todo o País, extrapolaram as previsões mais otimistas dos empresários do comércio, e o valor da conta, ainda sendo feita, assusta. Ela ultrapassa os R$ 1 bilhão, se levar em conta uma média de R$ 150 milhões que a cada dia deixaram de circular no mercado.

Numa avaliação crítica da situação, o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia (Fecomércio), Carlos de Souza Andrade, disse que faltou ao Governo Federal capacidade de diálogo com os grevistas, que durante mais de uma semana paralisaram por completo as principais atividades produtoras no País.

Nessa entrevista exclusiva à Tribuna da Bahia, o presidente da Fecomércio-BA, Carlos Andrade, disse que é preciso que se aprenda com o episódio e busque-se medidas que evitem a sua repetição. “Uma venda perdida é algo irrecuperável. E perdemos muito, pois lidamos na ponta como dia a dia do cidadão”, disse.

Tribuna da Bahia – Qual a avaliação, a curto, médio e longo prazo que se pode fazer dos impactos causados pela greve dos caminhoneiros?

Carlos Andrade – Antes de tudo, se houvesse uma capacidade e sensibilidade para o diálogo, era algo para ser resolvido em um ou dois dias. Faltou habilidade para se lidar com o problema. E os prejuízos foram gigantescos em todos os seto0res da sociedade.

Tribuna – As reivindicações dos caminhoneiros foram justas e tiveram apoio da classe empresarial?

C.A - Inicialmente demos apoio ao movimento, pois entendemos que os aumentos, uma, duas, três vezes nos combustíveis em poucos dias é contra qualquer tipo de gestão. Mas quando o movimento começou a receber infiltrações de políticos que buscavam se aproveitar da situação, se tornou difícil qualquer estabelecimento de dialogo. E ao final de tudo, quem vai acabar pagando por tudo isso é a população.

Tribuna – Quais os setores mais afetados da economia?

C.A – Inegavelmente o comércio. Do varejo, do pequeno comerciante, aos grandes lojistas, aos atacadistas. E foram prejuízos gigantescos. Porque é o comercio quem lida diretamente com a população, na ponta da cadeia produtiva, com a atividade econômica, com a população. Se esta não compra, ele quebra. E se a indústria deixa de produzir, ele também quebra.

Tribuna – Estimativas? Fala-se em cifras milionárias... Quais os efeitos diretos nas vendas? A questão do emprego, por exemplo.

C.A – Pelas nossas estimativas, uma perda diária de R$ 150 milhões na Bahia (R$ 50 milhões em Salvador e Região Metropolitana), o que ultrapassa a soma de R$ 1 bilhão. E isso em todos os setores do comércio. O mais grave é que isso traz reflexos na geração de emprego e na própria expansão da atividade. Sem vendas, ou com perdas difíceis de serem repostas, como gerar mais empregos?

Tribuna - Há como reverter essa situação a curto e médio prazo? Dá para se estabelecer um prazo de recuperação do setor?

C.A – Em um mês estimamos que haja uma normalização. Mas uma retomada do crescimento, isso é algo mais demorado. Uma venda, qualquer que seja ela, não realizada, é algo irrecuperável, pois perde-se a oportunidade do momento. E quando já começávamos a retomar essa estabilização na economia, vem esse tremendo baque. Nossa esperança é que no São João e nos demais meses retomemos as atividade, com uma meta de poder chegar a um crescimento da economia de até 2,5% ao final do ano, o que sertã de bom tamanho.

Tribuna – Então, para retomar esse crescimento, o que precisaria ser feito de imediato, até mesmo para que não advenha uma nova crise?

C.A – Em primeiro lugar, o governo, e aí falo do municipal, estadual e federal, deve manter um diálogo permanente com os setores produtivos em todas as suas esferas. E olhar mais para o pequeno e médio empresário, que são os maiores geradores de emprego e renda no País. O comércio, incluindo ai o serviço e o turismo, respondem por aproximadamente 70% do PIB do País. E em segundo lugar olhar de forma diferenciada para os pequenos e micro empresários.

Tribuna – E com relação a dívidas e tributos, como o Refis (refinanciamento de dívida) e da carga tributária?. 

C.A – Não um Refis amplo, porque este leva em conta apenas a situação dos grandes empresários, mas um refinanciamento das dívidas para aqueles que têm dificuldades de pagar, porque não têm acesso direto aos financiamento dos bancos, como Caixa, BB, BNB e BNDES. É preciso maior flexibilidade. E uma reforma tributária se faz mais que necessaária.

Tribuna – Qual hoje a situação do comércio varejista?

C.A – Existe uma inadimplência alta do pequeno e micro empresário. Nos grandes shoppings de 10 a 15 lojas estão fechadas, porque seus proprietários não têm como arcar com os custos, do aluguel e da carga tributária. E quando eles buscam uma linha de crédito nos bancos, não têm sequer acesso aos gerentes, porque estão inadimplentes. É preciso um olhar para a crise atual e como sair dela.

Tribuna – Mas mesmo com esse quadro o setor mantém o otimismo de um crescimento ainda este ano?

C.A – Se o governo postergar os impostos para o setor produtivo, dando condições de crédito junto aos bancos de fomento, poderemos ter um PIB crescendo até 2,5% ao final do ano. Isso porque não podemos e não devemos pagar os atuais custos dos impostos. Em 48 anos de atividade, nunca passamos por tamanha crise. Sem vendas, que com essa greve chegou a cair 40% nos últimos dias, não temos como gerar receita para pagar os tributos. Estamos pagando por uma turbulência dos últimos cinco anos de governo.

Tribuna – E o que se pode aprender com toda essa situação vivida pelos brasileiros nos últimos dias.

C.A – Primeiro que é preciso que os governos (e falo de todos os governos, não apenas desse) que esteja sempre pronto para o diálogo, que é uma forma de antecipar o problema. Que tenha flexibilidade de ações capacidade de negociação. E que os caminhoneiros mostraram que quando um setor está unido, ele se torna mais forte, inclusive para evitar a ação de aproveitadores.

Toda semana nós, empresários do comércio, serviços e turismo, através da Fecomércio, nos reunimos com as federações similares da agricultura e da indústria, onde debatemos pautas que são comuns a todos os setores da atividade produtiva, com o objetivo de estarmos unidos e fortes nas nossas reivindicações. Hoje passamos por uma situação em que estamos lutando para tentar sobreviver. Mas se tivermos condições, iremos crescer.



Tribuna da Bahia, Salvador / Por Adilson Fonsêca
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