SALVADOR @ Cortejo festivo marca hoje retorno do casal de caboclos para a Lapinha - Observador Independente

BAHIA

jueves, 5 de julio de 2018

SALVADOR @ Cortejo festivo marca hoje retorno do casal de caboclos para a Lapinha

Casal de caboclos recebe homenagens na praça do Campo Grande
Foto: Luciano da Matta | Ag. A TARDE



"Para mim eles são tudo. Assim como o povo católico com Deus, pra gente, que crê no axé, eles representam tudo". Assim que a candomblecista Marilene Muniz, 60 anos, explica a importância do caboclo em sua vida. Ela era uma das centenas de pessoas que foram à praça 2 de Julho, no Campo Grande, homenagear os caboclos que ficam no local até quinta-feira, 5, às 18h30, quando retornam em cortejo para o Pavilhão da Independência, na Lapinha.

A volta dos carros emblemáticos conta com a participação da orquestra do maestro Reginaldo de Xangô, além de fanfarras e grupos culturais e atrai uma multidão. Até lá, a movimentação é do público, que lota os carros com oferendas. Com cestas fartas e variadas, a maioria constituída de frutas, legumes e raízes.

Quem não conseguiu acompanhar os caboclos no 2 de Julho também aproveitou a oportunidade para renovar a fé. É o caso de André dos Santos, 35 anos, religioso da umbanda. "Não pude ir ao desfile por causa do meu joelho doente, mas, assim que pude, vim aqui fazer minha oferenda", conta.

Reconhecimento

André critica ainda o preconceito com as religiões de matriz africana. "Meus pedidos sempre são atendidos. Muita gente não valoriza por ser uma religião seguida por negros, na maioria, mas é uma das religiões mais lindas do mundo", completa.

Engana-se quem pensa que apenas seguidores do candomblé prestam homenagens aos caboclos. Carmelita Silva, 50 anos, é católica e foi ao Campo Grande pela primeira vez. "Apesar de morar em Salvador há mais de 40 anos, nunca tinha vindo. Aproveitei que estava por perto e fiz uma oração para eles", diz ela, que revelou ter pedido paz e prosperidade.

Já Rita Nascimento, 56 anos, também católica, revela que sempre homenageia os caboclos. "Venho desde nova. É um momento muito importante, representa muito a Bahia e o Brasil. Tenho muito prazer em fazer uma reverência aos heróis da Independência que são representados pelo caboclo e pela cabocla", diz.

Relação com o divino

O historiador e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Milton Moura afirma que não estranha a participação de católicos. "O catolicismo popular é compatível com tudo isso, porque já é uma religião que trabalha com oferendas para os santos, promessas. Se você perceber, as pessoas conversam com os santos, assim como fazem com os caboclos", explica.

O estudioso evita usar a palavra "sincretismo" para explicar a devoção de alguns católicos pelas entidades que geralmente são associadas a religiões de matriz africana. "Não uso essa palavra, porque dá a entender que se tornaram a mesma coisa. Prefiro dizer 'interface de práticas e crenças de matrizes diferentes'. Tem pessoas que vêm, e, para elas, o caboclo é mais forte. Já para outras o significado é mais fraco. Tem gente ainda que vem pelo aspecto cívico ou apenas para tirar fotos", salienta.

O historiador frisa que a linha que divide as religiões de matriz africana não é tão simples. "Essa distinção entre umbanda e candomblé não é tão rígida quanto fazem parecer. O caboclo geralmente é associado à umbanda, mas muitos terreiros de candomblé cultuam caboclos também", explica.

Gabriel Andrade*Sob a supervisão da editora Meire Oliveira

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