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3 de janeiro de 2019

ARTIGO ūüďĚ Por Quem os Sinos Dobram - Reflex√£o sobre a solidariedade

José Gonçalves do Nascimento / Autor
Come√ßo recorrendo ao mestre John Donne, citado por Ernest Hemingway, no cl√°ssico "Por Quem os Sinos Dobram": “Nenhum homem √© uma Ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem √© uma part√≠cula do Continente, uma parte da terra. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”.

Costuma-se dizer que o que nos une, enquanto humanidade, √© maior do que aquilo que nos divide. E √© verdade. Pelo menos nestes aspectos: habitamos sob o mesmo teto, respiramos o mesmo ar, bebemos a mesma √°gua; vivemos sob o mesmo c√©u, nos banhamos no mesmo mar, nos alimentamos dos mesmos nutrientes; temos em comum o nascer, o viver e o morrer; partilhamos dos mesmos problemas, das mesmas inquieta√ß√Ķes, das mesmas incertezas; somos semelhantes em tudo, inclusive na finitude; participamos dos mesmos destinos, viajamos na mesma embarca√ß√£o, estamos sujeitos aos mesmos limites.

Caracter√≠sticas comuns, destinos comuns, inquieta√ß√Ķes comuns, desafios comuns exigem dos humanos gestos, atitudes, caminhos igualmente comuns. 

Isso implica a capacidade de ver e sentir o que se passa no entorno, de olhar para al√©m do pr√≥prio umbigo, de sair da √°rea de conforto e ir ao encontro do outro, de fazer al√©m do que se √© cobrado. Significa assumir a defesa do outro; mais do que isso: colocar-se no lugar do outro, sentir a dor do outro, interessar-se pelo outro; correr risco pelo outro. 

Implica, √†s vezes, n√£o apenas ensinar o caminho, mas pegar na m√£o do outro e lev√°-lo at√© o caminho; n√£o apenas ensinar a pescar, mas tamb√©m pegar no anzol e ajudar o outro a pescar; √© colocar “o cora√ß√£o na mis√©ria alheia”, no dizer de Guimar√£es Rosa; √© Ir junto, fazer junto, incomodar-se junto, resistir junto, lutar junto, celebrar junto...

Carregamos em nós infinitas possibilidades, entre as quais a de superar o individualismo tacanho que nos avilta e nos distancia do nosso real papel enquanto membros de uma comunidade de semelhantes. Carregamos em nós, igualmente, a disposição para práticas concretas de altruísmo e de dedicação ao serviço da causa humana, bem como do ambiente em que vivemos, nele incluídos outros seres vivos, a terra, o mar, o ar, os rios, as florestas.

S√≥ a solidariedade, como valor universal e intr√≠nseco √† natureza humana, √© capaz de conceber rela√ß√Ķes de paz, de justi√ßa, de toler√Ęncia, de respeito √†s diferen√ßas (individuais e coletivas), de acolhimento ao migrante, ao refugiado, aos que se encontram √† margem da sociedade, aos exclu√≠dos de tudo e de todos.

A solidariedade est√° na luta dos defensores do acesso √† terra por parte daqueles que dela dependem para morar, trabalhar, cultivar sua lavoura, alimentar sua cria√ß√£o, comer, beber, educar seus filhos. 

A solidariedade est√° na luta dos defensores do uso da moradia por parte de quem n√£o disp√Ķe de um lar digno onde possa repousar com o m√≠nimo de conforto e seguran√ßa. 

A solidariedade est√° na luta dos defensores das popula√ß√Ķes de rua, habitantes de outra cidade dentro da mesma cidade, cidad√£os de papel, ref√©ns da culpa de terem nascidos pobres, pretos, gays, l√©sbicas, analfabetos, nordestinos, alco√≥latras. 

A solidariedade est√° na luta do povo ind√≠gena em defesa do seu direito √† terra, aos rios, √†s florestas, √† ca√ßa, √† pesca; bem como ao pleno usufruto das suas culturas, das suas l√≠nguas, das suas religi√Ķes, dos seus saberes, das suas filosofias, dos seus mist√©rios, dos seus feiti√ßos. 

A solidariedade est√° na luta do povo afrodescendente que a todo momento busca impor-se, ocupar espa√ßos de decis√£o, e usufruir de oportunidades iguais em rela√ß√£o aos demais, n√£o obstante os estigmas do preconceito racial (e social) de que foi e continua sendo v√≠tima. 

A solidariedade está na luta política em defesa das liberdades democráticas, na promoção dos direitos humanos e sociais, na afirmação das minorias, na preservação do meio ambiente, no fomento de iniciativas que proporcionam o pleno exercício da cidadania.

A solidariedade est√° na luta pela constru√ß√£o de uma nova ordem econ√īmica, com base nos princ√≠pios do cooperativismo, e sem submeter-se √† concorr√™ncia desleal e selvagem imposta pela l√≥gica do capitalismo.

A solidariedade est√° no sangue dos m√°rtires, semente da nova terra, certeza do novo amanh√£, rastro de luz a dissipar a escurid√£o mais pavorosa. 

A solidariedade est√° no testemunho dos profetas do povo, anunciadores da Boa Nova da paz, da justi√ßa, e co construtores de uma sociedade de fato civilizada, √©tica, fraterna e inclusiva. 

A solidariedade liberta, transforma, move montanhas, opera milagres, mexe com velhas estruturas, destrona a estupidez, o egoísmo, o orgulho, o rancor; constrói mundos solidamente saudáveis, forja espaços de exercício da liberdade, de promoção da vida, de devoção à dignidade dos seres humanos; de cuidado com tudo o que existe.

Comecei com John Donne e termino como Paulo Freire: “A solidariedade tem de ser constru√≠da em nossos corpos, em nossos comportamentos, em nossas convic√ß√Ķes”.



Por # José Gonçalves do Nascimento
jotagoncalves_66@yahoo.com.br

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