Povo de Santo faz protesto contra intolerância religiosa diante de pedra sagrada do candomblé em Salvador - Observador Independente

Povo de Santo faz protesto contra intolerância religiosa diante de pedra sagrada do candomblé em Salvador

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 Foto: Giana Mattiazzi/TV Bahia



Segundo Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, já foram registrados oitos casos de preconceito religioso este ano.



Membros de vários terreiros de candomblé de Salvador escolheram esta segunda-feira (21) para realizarem um ato contra o combate a intolerância religiosa. A ação foi feita na Pedra de Xangô, monumento sagrado do candomblé localizado no bairro de Cajazeiras 10, na capital baiana.

Desde 2007, o dia 21 de janeiro é destinado ao Combate a Intolerância Religiosa por conta do aniversário de morte de mãe Gilda, fundadora do terreiro Axé Abassá de Ogum. A líder religiosa teve o terreiro invadido em 2000 por agressores que a acusaram de praticar charlatanismo. Segundo familiares, a ialorixá infartou quando viu a foto dela estampada em um jornal.

A manifestação desta segunda aconteceu diante da pedra, onde rodas de cânticos, ao som dos atabaques, que reverenciam o orixá Xangô, foram feitas.

De acordo com o babalorixá Baba Reinaldo Baroci, a ação de hoje pediu paz e mais respeito às escolhas religiosas.
Nós estamos aqui reunidos mais ou menos com 10 líderes de terreiros de Cajazeiras e bairros vizinhos para pedir paz. Nós vivemos em um país laico, aonde todos nós temos o direito de participar, de escolher a religião que nós quisermos, 
afirmou Baroci.

Para a ialorixá Iara D'oxum, celebrar o dia de combate à violência não é um dia de alegria, mas é um momento histórico de resistência.

"É um momento pra gente, infelizmente, de dor. Não é de alegria. Dor por sofrermos tanta intolerância religiosa no século XXI. Esse é um momento histórico, de dizer: 'Estou aqui, me respeite', a gente não quer nada mais", pontuou a mãe de Santo.

Segundo o Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, responsável por receber, atender, encaminhar e acompanhar toda e qualquer denúncia de discriminação racial e/ou violência envolvendo racismo ou intolerância religiosa, 141 casos de intolerância religiosa foram registrados no ano de 2018. Só neste primeiro mês de 2019, já foram registrados oito casos.

Casos de intolerância

Camaçari

No dia 12 de janeiro, o Terreiro Ilê Axé Ojisé Olodumare, localizado em Barra do Pojuca, na cidade de Camaçari, região metropolitana de Salvador, foi invadido e o pai de santo da casa foi agredido com uma coronhada no rosto.

De acordo com o Babalorixá [pai de santo], Rychelmy Imbiriba, seis homens encapuzados, dois deles armados, entraram no barracão gritando durante uma celebração religiosa a Oxalá. Nesse momento, o Babalorixá tentou conversar com o grupo, mas acabou sendo agredido com uma coronhada. No momento, havia 150 pessoas no local.
"Teve todo um processo de xingamento, daí você percebe que não era só um assalto, mas um ódio da religiosidade, desse processo todo de axé que a gente carrega. Foi um momento de terror, a gente não está preparado para uma situação dessa", contou Rychelmy .

Salvador

No dia 2 de janeiro, candoblecistas se reuníram em Salvador para protestar contra um ataque a Pedra de Xangô.

Conforme os manifestantes, 100 kg de sal foram jogados na pedra no dia 28 de dezembro. O caso foi considerado um ato de intolerância religiosa, já que o sal é um símbolo de purificação, e o fato de ter sido jogado na pedra dá a entender que o local cultuado pelo Candomblé estivesse impuro.

No protesto, o povo de santo pediu respeito ao Candomblé e limpou o que ainda tinha de sal no local. A Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb) já tinha ido ao local e varreu o sal da área onde fica a pedra.

Os processos já continuam bastante avançado. Em breve a Secretaria de Segurança Pública dará o desfecho, culminando com a prisão dos assaltantes e daquele ato que foi extremamente violento para a comunidade.

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