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13 de março de 2019

O mais antigo terreiro ijexá do Brasil agora é patrimônio cultural de Salvador

Crédito da foto :: Betto Jr./CORREIO



Fernanda Lima by Correio24Horas



Cerimônia em Plataforma lotou o barracão na noite desta terça-feira (12).



As últimas palavras de Mãe Estelita de Oyá foram um canto para Ogum. Na noite do dia 10 de junho de 2016, no barracão do Ile Asé Kalè Bokùn, a senhora de 97 anos estava agarrada aos documentos que davam início ao processo de tombamento do terreiro. No dia seguinte, como se esperasse apenas ter segurado aqueles papéis, descansou, sem ver o sonho de uma vida realizado.

Finalmente, nesta terça-feira (12), o orixá das lutas e conquistas reconheceu a batalha. O mais antigo terreiro ijexá do Brasil agora é patrimônio de Salvador. O pedido do tombamento da Casa, na Rua Antônio Balbino, em Plataforma, era um antigo desejo de Mãe Estelita e seus filhos.

A cidade de Salvador passou a reconhecer bens materiais e imateriais como patrimônio a partir de 2014. Desde então, havia apenas um terreiro tombado, o Hunkpame Savalu Vodun Zo Kwe, ou Vodun Zô, na Liberdade.

Os estudos sempre privilegiaram os candomblés do centro. Mas os ijexás tiveram e têm papel fundamental na manutenção e preservação da religião. Quero saudar a todos!, 
discursou o antropólogo Vilson Caetano, emocionado.

O barracão, lotado por aproximadamente 60 pessoas, comemorava o tão esperado reconhecimento. O vice-prefeito Bruno Reis prometeu avançar ainda mais, “porque Salvador jamais permitirá intolerância”.

“O que marca, para mim, como religioso, é como o orixá fez o objetivo ser alcançado. Sentimos a presença de Oyá (Iansã) hoje (ontem). Era um sonho”, falou o presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), Leonel Matos, um dos participantes da cerimônia.

Também estiveram presentes a atual ialorixá Vânia Amaral e o presidente da Fundação Gregório de Matos, Fernando Guerreiro.

O antropólogo Vilson Caetano deixou para trás a porta azul do Kalé Bokún apenas com uma certidão de nascimento abarrotada e os depoimentos dos filhos da casa. De bibliotecas a arquivos públicos, transformou um nada em material suficiente para provar à Fundação Gregório de Matos: o terreiro merecia e precisava ser tombado pelo município.

A espera foi de quase 10 anos enquanto os membros ansiavam pelo reconhecimento do terreiro junto ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Mas nunca tinham conseguido levantar as informações necessárias ao tombamento.

Preservação

O reconhecimento terá suporte de ações de preservação. Não há, no momento, nenhum outro terreiro à espera de tombamento municipal, embora os pedidos possam ser enviados diretamente à fundação. 

“É importante preservar contra a intolerância e contra a especulação. Também há a questão das plantas centenárias, que corriam risco de desaparecer”, argumentou Guerreiro.

Sem o Ile Asé Kalè Bokùn, e a força do Ijexá, o candomblé talvez não tivesse conseguido resistir à intolerância que proibiu, por séculos, os rituais da religião.
(Foto: Betto Jr./CORREIO)


O xequerê, instrumento de percussão utilizado nos rituais do candomblé, era tocado baixinho. Conforme endurecia a perseguição à religião, os terreiros abaixavam o volume. Uma equação de sobrevivência. Assim, os adeptos do Candomblé Ijexá conseguiram resistir à violência e manter viva a ancestralidade. 

Na capital baiana, não passam de 15 os terreiros da Nação Ijexá. O endereço do terreiro remete ao passado do povo ijexá, habitante em massa do Subúrbio Ferroviário de Salvador, local afastado, como pedia a marginalidade da situação de muitos deles.

No século 19, chegou à Península de Itapagipe a família que, na década de 30, teria o legado estendido por ação de Severiano Santana Porto, o Severiano de Logun Eden. Na lista de rituais, um deles é marca desse patrimônio: o culto Geledé, quando o poder ancestral feminino é exaltado.
É o ritual da resistência em que preservamos a força e toda a potência feminina, 
explicou Vânia Amaral, depois da cerimônia. 

A mãe de todos 

Vânia, 50 anos, jamais imaginou ser mãe de tantos filhos. A ligação da família com o Candomblé a levou ainda bastante jovem para o Ile Aşé Kalè Bokùn. Ali cresceu, conheceu irmãos de santo e aprendeu com a tia de sangue, a última ialorixá da casa, Estelita, muito sobre a religião da ancestralidade africana. Mas nunca se pensou mãe de santo, apenas uma boa filha para Oyá, sua mãe Iansã. Até que engravidou, aos 24 anos, e os orixás a chamaram.

Precisou ser iniciada definitivamente em estágio avançado da gravidez, por ordem do inexplicável. Cabeça feita, seguiu quase imediatamente para o hospital, onde a filha Vanessa nasceu. A menina já nasceu Iaô, iniciada no Candomblé. 

É uma situação rara e especial na religião. Foi sua única filha enquanto Iansã descansava para o novo chamamento, que viria em 2016, quando da morte de Estelita. Os búzios elegeram Vânia, a mulher cuja força se impõe absoluta no Ijexá.

"Eu ter me iniciado grávida me fortaleceu demais. Nunca pensei em ser mãe de santo, mas também nunca pensei em desistir", afirma. Tem o rigor de uma mãe, mas também os afagos e carinhos a todos os seus filhos e irmãos. Como uma típica filha de Iansã.
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