Mestre em Química une amor por bebida, deixa trabalho em refinaria e monta cervejaria na BA: 'Me desafia mais' - Observador Independente

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Mário

13 de abril de 2019

Mestre em Química une amor por bebida, deixa trabalho em refinaria e monta cervejaria na BA: 'Me desafia mais'


Proa Cervejaria fica em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. Com dez tipos diferentes de cerveja no catálogo, empresa produz 12 mil litros da bebida mensalmente. Conheça uma fábrica de cerveja artesanal em Lauro de Freitas, na região metropolitana

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Quando a mestre em química Debora Lehnen começou a se aventurar na criação de cervejas, resolveu juntar o amor pela bebida com o desafio da criação e mistura de elementos característicos da sua formação. Assim nasceu a Proa Cervejaria, em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador.

A gaúcha, de 35 anos, veio para Bahia em 2014. Movida pela curiosidade, ela fez cursos de cervejaria caseira e passou a fazer a produção em casa, com alguns amigos.

Lá no Rio Grande do Sul a cultura é muito próxima da cerveja, é algo muito bem enraizado. Eu sempre tomava pensando: 'Só tem malte, lúpulo e levedura, e tem toda essa diferença entre uma cerveja e outra'. Eu comecei a me interessar para saber quais as reações [químicas] estavam ocorrendo, o que fazia uma cerveja ser tão diferente da outra.
Debora é a única mestre cervejeira da fábrica, que tem oito funcionários, ao todo. Hoje, a Proa tem produção mensal de 12 mil litros, com capacidade para 20 mil.

Com dez tipos diferentes no catálogo, e várias outras cervejas sazonais, como as de jaca e seriguela, a química atribui parte da sua desenvoltura na fábrica à formação acadêmica.

Acho que se eu só usasse os meus conhecimentos do curso [de mestre cervejeira] eu teria dificuldade. Até porque, para fazer projeto de fábrica, você tem que dimensionar máquinas. Os equipamentos eu que desenhei, porque eu queria que fosse um pouco maior para suportar uma carga maior de malte, para suportar uma carga mais concentrada. Foi tudo bem pensadinho.
Apesar de todos as qualificações que fez, o bichinho do machismo também atinge Debora, que tem a capacidade como mestre-cervejeira sempre colocada à prova.

“Eu sofro muito das pessoas não acreditarem que eu sou mestre-cervejeira da Proa, porque eu sou mulher. A gente sempre tem a capacidade colocada em xeque. Esse meio não é tão grande, as pessoas se conhecem. Eu percebo que sou mais respeitada fora da Bahia, do que na Bahia”, avalia.

"A gente tem que provar duas vezes que é boa, para as pessoas entenderem e falarem: 'hum, realmente é verdade'"

Ela conta ainda que as funcionárias que trabalham diretamente com o público, na venda das cervejas no balcão, também sofrem com o machismo, mas em outro ponto: o assédio.

É muito complicado, porque a gente é colocada à prova toda hora e, às vezes, homem e cerveja têm um relacionamento estranho. Às vezes eles passam dos limites e acham que podem dar em cima. Ficam assediando. As gurias se posicionam de uma forma muito legal. Estabelecem limites na relação entre consumidor e funcionário.

"As pessoas não entendem bem o limite. Mas quando as meninas estão atrás do balcão, elas estão numa posição mais frágil do que a pessoa que está na frente, então é bem complicado"

A mestre cervejeira pondera que, normalmente, as pessoas que já frequentam o local são muito educadas.


“O público costuma entender o posicionamento da gente, já entra no clima. Mas assim, já teve casos de eu ter que pedir para a pessoa: 'Desculpa, mas você não está sendo conveniente e eu gostaria que você se retirasse'”, revelou Debora.

Produção e fábrica

A produção, que no início era descompromissada, se tornou mais séria porque Debora não encontrava cerveja artesanal com facilidade em terras baianas. [Confira o tour pela cervejaria no vídeo acima]

Naquela época, praticamente não tinha cerveja artesanal aqui. O pouco que tinha era muito caro e difícil de achar. Aí eu comecei a fazer mais seriamente para o meu consumo. Só que aquilo começou a se tornar tão legal, que eu fiquei mais interessada em fazer cerveja do que com meu emprego, 
conta ela.

"A cerveja me desafiava muito mais do que o meu trabalho, e eu comecei a olhar aquilo com outros olhos. Comecei a olhar de fato como um negócio"

Assim, ela resolveu apostar na área e deixar a refinaria de uma petroquímica onde trabalhava. Depois de encontrar um sócio disposto a investir, Debora se organizou, foi para o sul fazer cursos e estudou o mercado de vendas de cerveja no país.

De volta à Bahia, fiz um plano de negócios e comecei a tocar a empresa. A Proa começou a vender cerveja em junho de 2018. Quando começamos, todo o processo legal já era feito aqui. Uma coisa que eu me orgulho muito é que a gente não vendeu um litro sem ser legalizado. Foi tudo certinho, tudo dentro da legislação, 
conta.

A fábrica da Proa começou a ser montada em agosto de 2017. Até a inauguração, em junho do ano passado, a empresa passou por reformas e testes de receitas. Nesse tempo, Debora criou alguns dos sabores mais procurados entre seus clientes, como a 'Carrie Nation', cerveja do tipo ‘American India Pale Ale’ (IPA) – cerveja mais vendida da Proa – e uma cerveja com pepino, que não chegou a ser comercializada.

Durante essa fase eu testei muitas receitas. Eu fiz uma cerveja de ostra, por exemplo. É uma cerveja que não pode fazer [em grande escala, para comercialização], porque o Ministério da Agricultura e Pecuária não permite. Rola umas coisas loucas assim, que você pensa: 'Não, não é todo mundo que vai querer tomar uma cerveja de pepino'. Então não dá para colocar essa cerveja no mercado,
 avalia.

A Proa tem uma área de produção com sala de estoque e moagem de grãos, onde ocorrem a extração do açúcar e do malte, separação dos grãos do líquido, fervura e adição dos lúpulos e fermentação.

Depois que a cerveja passa por todos esses processos, ela vai para uma envasadora – equipamento responsável por colocar o líquido nas garrafas.

Além da produção, a Proa tem também um bar-de-fábrica, onde os clientes podem aproveitar as bebidas frescas, que saem direto da ala de produção para a câmara fria, que tem temperatura de -2º.

“Apesar da gente ter esse nicho de bar, da venda direta, o foco da Proa é distribuição. Hoje, temos entre 80 e 100 pontos de venda. A gente também manda cerveja para outros três estados, que são Santa Catarina, Espírito Santo e São Paulo, por enquanto. A ideia é a gente aumentar essa rede de distribuição”, conta Debora.

Crédito das fotos :: Itana Alencar/G1 BA / Matéria do G1/Ba

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