Criado por casal, único museu do subúrbio de Salvador reúne peças da capital e de outras cidades do país: 'Aprender novas narrativas' - Observador Independente

Acontecendo

Post Top Ad

Bem-vindo. Hoje é

Post Top Ad

Mário

11 de maio de 2019

Criado por casal, único museu do subúrbio de Salvador reúne peças da capital e de outras cidades do país: 'Aprender novas narrativas'


Acervo da Laje fica no bairro de São João do Cabrito e tem entrada gratuita. Local ainda tem uma vista para uma das paisagens mais conhecidas e bonitas da região, para a ponte do trem sobre o mar.


Com o objetivo de mudar o olhar sobre a periferia e resgatar a memória do subúrbio ferroviário de Salvador, o casal José Eduardo, de 44 anos, e Vilma Santos, de 51, criou o primeiro e único museu do subúrbio ferroviário de Salvador.

O Arcevo da Laje fica no coração do bairro de São João do Cabrito e, desde 2010, abriga mais de 4 mil peças, entre objetos históricos e obras de artistas locais e de outros lugares do país. A entrada é gratuita.

O espaço é preenchido por quadros, esculturas, azulejos, conchas encontradas nas praias do subúrbio, porcelanatos e objetos históricos, e ainda tem uma das vistas mais conhecidas e bonitas da região: de uma ponte por onde o trem passa sobre o mar de Plataforma.
Nós nascemos aqui e não tivemos acesso a esse tipo de equipamento cultural, que é importante para a gente ter uma orientação para o futuro. Se você conhece seu passado, você vai enfrentar o seu futuro de uma forma mais proativa. Eu acho que com o acervo, o Centro Cultural de Plataforma e outros espaços, o subúrbio está ganhando um protagonismo na dimensão humana, 
disse José Eduardo.

José é formado em pedagogia pela Universidade Católica do Salvador (Ucsal), é mestre na mesma área pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), e também é doutor em saúde pública pela mesma instituição. Vilma também é pedagoga e trabalha como professora primária.

O acervo nasceu após pesquisas sobre a arte invisível da periferia na região, buscando entender as elaborações estéticas e históricas do território.
A maioria dos equipamentos culturais está no Centro [da cidade] e o subúrbio, com uma quantidade de bairro expressiva, não tinha um lugar que contasse a história dele, 
contou José Eduardo.

De acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), o subúrbio de Salvador vai do bairro da Calçada, onde começa a linha férrea, a São Tomé de Paripe. Os demais bairros são Alto da Terezinha, Alto do Cabrito, Coutos, Fazenda Coutos, Itacaranha, Lobato, Nova Constituinte, Paripe, Periperi, Plataforma, Praia Grande, Rio Sena, Santa Luzia e São João do Cabrito. A Ilha de Maré também faz parte da região.

Segundo o último Censo do IBGE (2010), o subúrbio concentra 12,6% da população da capital baiana, com 335.927 mil moradores.

Para contar a história da região, o acervo começou a ser construído após um mapeamento de artistas locais e depois com a procura dos artefatos históricos descartados pela população. O casal conta com a ajuda do produtor cultural Leandro Santos, de 28 anos, para organizar o local, que, além de receber visitas, oferece oficinas gratuitas.
São obras que conta nossa história e, agora, está acontecendo um movimento interessante que são artistas de outras cidades do Brasil, que estão trazendo peças e obras para dialogar com os daqui [subúrbio].
José destacou ainda a importância do acervo no sentido de trazer a sensação de reconhecimento e pertencimento, principalmente, aos jovens da região.

“As crianças e adolescentes conseguem ver que o território deles também tem história. Um local que abriga a casa, o museu e a escola e que é um espaço para oferecer oficinas artísticas, bate-papos, rodas de conversas, relacionados geralmente a narrativas invisíveis, narrativas que foram esquecidas”, explicou.

O acervo fica na laje do casal. Além deles, cinco gatos, Pity, Fubuia, Gatolomeu, Chorão e Alma, e um cágado, Caquinho, moram no local.
Também é casa, tem gente que almoça aqui. A oficina a gente sempre tenta fazer em um ambiente bem familiar, de casa mesmo, porque aprender envolve afeto, envolve relação, envolve trocas. Ser um museu do nosso jeito é aprender novas narrativas, 
contou o dono do museu.

Na "varanda" da laje, Vilma tem uma coleção de plantas que, além de decorar o local, ajudam a contar a história do subúrbio.

"Os crótons, as plantas para chá, os boldos, aqui encontra todos os tipos de boldos, plantas de rezas, alumã, aroeira, guiné, são muitas. Agora a gente está plantando chapéus de Napoleão, que tem muito na Federação, uma amarelinha, que é interessante tê-la. O olho do pombo...", contou Vilma, sorridente.

Construção de identidade local

Segundo José Eduardo e Vilma, o museu é uma tentativa de construção da identidade local e resgate da memória do subúrbio da capital baiana, que não são retratadas em outros centros.

“A gente cansou de ser marginalizados. O subúrbio agora tem que dialogar com a cidade de um modo mais elaborado e o museu ele é a memória, é a constituinte da vida na cidade. Então eu acho que o que está acontecendo no subúrbio é muito interessante, porque a gente não está deixando se levar por uma narrativa única", explicou o dono do museu.

O visitante que chega ao Acervo da Laje é recepcionado por uma escadaria colorida enfeitada com azulejos produzidos por artistas como Reinaldo Eckenberger, Prentice Carvalho e Emílio Ugart.

O que a gente entende é que a gente possibilita o máximo possível do encontro dessa população vulnerável com a beleza. Muitos de nós tínhamos uma visão muito estigmatizada do nosso território e de nós mesmos, como se a gente não pudesse elaborar nada, como se a gente não pudesse ser aquilo que a gente pudesse ser.
As paredes da laje são decoradas com quadros. Alguns deles foram encontrados em brechós ou doados por moradores dos bairros. Também são encontradas conchas marinhas, tijolos das antigas olarias, antigos ferros, parafusos e as porcelanas portuguesas, inglesas e alemãs, deixadas no local, quando os ingleses construir a linha férrea, no século 19.
No acervo temos obras de Otávio Bahia, de Fazenda Coutos, Zaca Oliveira, do Uruguai, os azulejos de Prentice, Bida, Fernando Queiroz, além de Rai Bahia, de Periperi, que faz esculturas de alumínio, de peixes, de máscaras tribais. Então esse é o legado artístico do subúrbio, 
disse José Eduardo.

De acordo com José e Vilma, muitos moradores da região acabam se surpreendendo com o que encontram no Acervo da Laje quando vão ao local pela primeira vez.
“As pessoas precisam ver, a gente fala sempre que tem um museu no subúrbio e as pessoas às vezes resistem, mas depois que elas chegam tomam um choque. Porque não é todo dia que você vê essas obras à sua disposição, e elas se surpreendem porque é um trabalho de quase 10 anos”, contou José.

Projeto Ocupa Lajes

Seis anos após inaugurar o museu no subúrbio, o casal criou o projeto "Ocupa Lajes", que oferece formação, democratização e circulação das artes visuais, na região. Na primeira edição, em 2016, o evento, formado por bate-papos, oficinas gratuitas e exposições, foi realizado em lajes do subúrbio e nos bairros do Marback, Nordeste de Amaralina e São Caetano.

Em 2018, em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado (Secult), o Ocupa Lajes também ofereceu as oficinas e depois realizou as exposições nos espaços culturais da Secult, no Centro Cultural Plataforma, no Espaço Cultural Alagados, no Uruguai, na Casa da Música, em Itapuã, no Solar do Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas.

As oficinas são espaços de aprendizagem. A gente sempre chama artistas para produzir as oficinas.

Para José, tanto o museu como o Ocupa Lajes são oportunidades de oferecer acesso a cultura, arte e educação aos moradores do subúrbio sem que eles precisem sair do lugar onde vivem.

Olha que direito negligenciado a gente teve. Muitas vezes, a gente nasce e cresce no território e a gente não tem dinheiro para ir no Centro [de Salvador] ver uma obra e se deslumbrar com aquilo e fazer uma experiência de beleza e saber que aquilo foi feito para nós, 

disse José Eduardo.

Post Top Ad

SCB