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18 de novembro de 2019

A SOCIEDADE LIMPANDO A CONSCIÊNCIA @lmoço para moradores de rua marca Dia Mundial dos Pobres em Salvador





Feijão, arroz, frango com cenoura, farofa e salada: 650 quentinhas servidas em almoço comunitário para pessoas em situação de pobreza, a maioria deles moradores de rua, marcou o Dia Mundial dos Pobres, ontem, em Salvador, durante evento promovido pelas Obras Sociais Irmã Dulce (OSID). Não só o almoço, servido ao meio-dia, quem participou do evento na Praça Irmã Dulce e no Santuário Santa Dulce dos Pobres (Cidade Baixa), também pôde desfrutar de um café da manhã - café, leite e pão com manteiga -, serviços de saúde e estética, oficinas, missas e apresentações culturais.

O evento reuniu centenas de pessoas e também marcou o encerramento da III Jornada Mundial dos Pobres, iniciada no último dia 10 com o intuito de chamar a sociedade à reflexão sobre a questão da pobreza no mundo. Um prato de comida no almoço não é realidade para aproximadamente 17 mil moradores de rua em Salvador - número divulgado pelo Projeto Axé, em abril deste ano.

Morador de rua há cerca de 27 anos, Geraldo das Neves, 34 anos, é uma dessas pessoas que se sentem invisíveis. Ele relata que depois de sair de casa, viveu desde a infância pela Cidade Baixa engraxando sapatos e dormindo entre o Largo dos Mares e a Ribeira. Sem conseguir emprego, Geraldo diz que seu maior sonho é poder dormir em uma casa. "Às vezes você passa pelos lugares e quando as pessoas te olham é de cara feia pensando que você é ladrão, 'sacizeiro' [termo popular para referir-se a usuários de crack], quando, na verdade, não é nada disso. Hoje eu já tomei café e vou almoçar. O meu sonho é poder fazer isso em minha própria casa", revela.

Para o Arcebispo Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, a ideia da jornada é lembrar às pessoas que os pobres existem, precisam ser vistos e necessitam de ajuda para sair da situação de vulnerabilidade em que muitos se encontram. Segundo Dom Murilo, é preciso não esquecer que “há milhares de pessoas necessitando de uma mão estendida” por não terem o básico para sobreviver.

“Nós sabemos que não é por um dia de ação que iremos resolver o problema da pobreza, mas o nosso intuito é fazer com que percebamos em nosso meio a presença de tantos necessitados, e que possamos pedir ao Senhor que toque os corações daqueles que podem mudar essa situação de tantas graves necessidades. Se nós soubermos repartir os bens, não haverá pobreza, nem fome, nem falta de lar", afirmou Dom Murilo Krieger.

O religioso ainda disse que a sociedade não deve esperar que apenas os muito ricos façam alguma coisa em prol das comunidades carentes, mas que cada um deve fazer o que estiver ao seu alcance para transformar as realidades de quem precisa. "Se eu me deixar tocar pelo amor de Deus, vou olhar minhas mãos e vou poder fazer pouca coisa, mas o pouco que eu fizer já será uma grande ajuda", concluiu o arcebispo.

Já a superintendente das Obras Assistenciais Irmã Dulce (Osid), Maria Rita Lopes, visivelmente emocionada, disse que, embora ações assistenciais sejam parte indissociável do trabalho da Osid, a manhã de ontem foi especial por mobilizar voluntários de várias áreas a continuar o trabalho de amor de Santa Dulce em favor dos que mais precisam.

Segundo Maria Rita, "o dia de amar e servir as pessoas mais necessitadas é todo dia. Mas hoje, esse encontro que termina com um grande almoço, é um dia especial. Um banquete onde todos comem juntos e bebem juntos, participando de um momento de socialização. Além disso, todas as vezes que fazemos esse tipo de evento, podemos aprender com as pessoas que participam dele e crescer com elas".

Empatia - A estudante B.O.J., de 13 anos, que participou com a família do almoço na Osid e das ações na Praça Irmã Dulce, e cuja mãe morou na rua por 35 anos, disse sentir muita tristeza ao ver o modo como as pessoas em condições de rua são tratadas. Segundo a estudante, é necessário se pôr no lugar do outro a fim de ajudar a transformar a sociedade, pois muita gente não nota que existem milhares passando dificuldades.

“Cada pessoa que está na rua tem uma história. Alguns passaram por dificuldades, outros foram expulsos de casa, outros se envolveram com coisa errada, mas todo mundo merece ter uma oportunidade. Hoje minha família vive com a ajuda do Bolsa Família e do aluguel social. Eu posso estudar e tenho uma casa, mas minha mãe sofreu muito nos anos que ela passou na rua com meus irmãos. Por isso, meu maior sonho é ser advogada e ajudar a tirar essas pessoas dessa condição”, revelou.

A dona de casa e mãe de B.O.J., Eliene de Jesus, 49 anos, conta sobre as dificuldades que passou durante os anos em que viveu com a família nos logradouros públicos da cidade. "Era péssimo. A gente não conseguia tomar banho, dormir, vivia com medo de apanhar, de sofrer abusos", relatou. Eliene de Jesus aproveitou o dia de ações para deixar as más lembranças para trás e cuidar da aparência com o tratamento de cabelos e confecção de turbante.

Trabalhando como diácono da Arquidiocese de Salvador por 15 anos, o presidente executivo da Ação Social Arquidiocesana (Asa), Itamar Mendes, salienta que as ações realizadas no Dia Mundial do Pobre é um evento que serviu para auxiliar a população mais carente da cidade e também unir vários grupos em torno de uma única causa. De acordo com Mendes, o evento foi um "alfinete para espetar nas pessoas e fazer com que elas acordem e entendam a condição do morador de rua".

"Com nossos projetos, pudemos perceber que nos últimos anos a população de rua em nossa cidade triplicou e isso a sociedade e os políticos precisam ver, pois tem gente passando fome do nosso lado sem que a gente veja. Passamos por essas pessoas e, com os olhos voltados para os nossos próprios problemas, muitas vezes não conseguimos enxergá-las".

Idealizador do projeto Beleza Legal, Gilberto Menezes, 34 anos, desenvolve trabalhos junto a comunidades carentes há mais de dez anos e relata que participar de ações como a do Dia Mundial do Pobre é muito compensador. "Me sinto extremamente feliz podendo fazer parte desse evento. Hoje pudemos atender mais de 50 pessoas aumentando a autoestima delas através do corte de cabelo e barba. Essas pessoas que são invisíveis para muitos, serão sempre vistas por nós", afirmou.

Também engajada no projeto de assistência voluntária, a comunidade Obra Lumen foi responsável pelos atendimentos de saúde através de médicos, fisioterapeutas e dentistas, e pelo entretenimento infantil. Segundo o coordenador da obra em Salvador, Victor Rodrigues, "hoje é o grande dia para chamar a atenção de todos em relação àqueles que estão marginalizados e procurar encontrar respostas para esse problema. Nós estamos aqui para mostrar que não somos indiferentes, que não queremos viver só pra nós", assegurou.



Foto: Felipe Iruatã | Ag. A Tarde

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