Disputa entre facções se acirra e impulsiona homicídios em abril no CE - Observador Independente

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29 de abril de 2020

Disputa entre facções se acirra e impulsiona homicídios em abril no CE



Número de mortes no Estado cresceu 90%, entre os dias 1º e 22 deste mês, em comparação com o ano passado. 'Salves' para matar rivais e vídeos com ameaças e ostentação de armas de fogo se espalham nas redes sociais.



O Estado do Ceará volta a estar sob disputa de facções criminosas. Após 21 meses seguidos de redução de homicídios, o índice tornou a crescer desde janeiro de 2020. Neste mês de abril, a tensão se acirrou, com 'salves' (mensagens de ordem) e vídeos em que criminosos ostentam armas de grosso calibre e ameaçam de morte rivais, compartilhados pelas redes sociais.

Entre os dias 1º e 22 de abril deste ano (última atualização de dados), a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) registrou, em todo o Estado, 306 Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) - índice que engloba homicídios, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. O número representa um aumento de 90% nos casos, em igual período de 2019, que tinha 161 mortes. Abril daquele ano terminou com 213 crimes, o que significa que já há, no mês corrente, um crescimento de pelo menos 43,6%.

No acumulado do ano (ao contar de 1º de janeiro a 22 de abril), o aumento de homicídios é de 96,7% (quase o dobro), ao saltar de 706 registros, no ano passado, para 1.389, neste ano. Conforme investigadores dos mais diversos órgãos do Estado ouvidos pela reportagem, a maioria dos crimes está ligada à guerra entre as facções Comando Vermelho (CV) e Guardiões do Estado (GDE) por território para o tráfico de drogas.

Pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), o sociólogo César Barreira acredita que houve uma retração das facções durante 2019, ano que teve duas séries de ataques criminosos contra o Estado e forte repressão policial, inclusive com o apoio de tropas nacionais. "É como se as facções tivessem guardado forças para um novo retorno", aponta Barreira.

"Enquanto as questões objetivas não desaparecerem, como a desigualdade social e a política de combate às drogas, essas questões (de violência) vão ser como ondas. Em determinados momentos, desaparecem; e em outros, retornam. Nós não podemos achar que as questões estão sendo resolvidas com a prisão de líderes das facções, dos deslocamentos das lideranças para outros presídios. É como se não tivesse atacando a real causa desses homicídios", afirma Barreira.

Operações contra o crime

A SSPDS informou por meio de nota que intensificou as ações para identificar e capturar pessoas envolvidas em diversos crimes, com foco naqueles indivíduos que tenham relação com crimes violentos contra a vida. Somente na última terça-feira (28), as Polícias Civil e Militar desencadearam operações de saturação em locais com incidência de alvos envolvidos em homicídios, no intuito de desarticular grupos criminosos. 

Ao todo, 19 pessoas, entre adultos e adolescentes, foram capturadas e irão responder pelos crimes na Justiça. As capturas aconteceram em Fortaleza (três), Caucaia (três), Cascavel (seis) e Pindoretama (sete).

A SSPDS disse ainda que, durante os motins no mês de fevereiro deste ano, foram registrados conflitos entre células de organizações criminosas no Estado, o que refletiu nos períodos seguintes e seguiu a tendência das disputas desses grupos em âmbito nacional. Atualmente, as forças de segurança do Estado trabalham para reorganizar suas atuações e traçar novas estratégias. 

O órgão reforçou ainda que o trabalho diário de policiamento preventivo e ostensivo visa coibir conflitos entre grupos criminosos que, durante disputas de territórios, ocasionam um aumento no número de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) no Estado.

Redes sociais

O grupos criminosos têm se digladiado e trocado ameaças nas redes sociais. Em um vídeo recebido pela reportagem, membros de uma facção ostentam metralhadoras, revólver e até um fuzil. "Lubrificar as bichas (armas) agora, deixar no óleo, tavam enterradas. Dar um bote (ataque) no Pirambu cruel", afirma um deles. Segundo um investigador, que preferiu não se identificar, a quadrilha que gravou o vídeo é da Barra do Ceará e se preparava para atacar um grupo rival, da região do Pirambu.

Outra célula pertencente a um grupo criminoso, do bairro Vila União, já tinha emitido um aviso sobre o acirramento da briga e pedido para familiares, amigos e vizinhos ficarem em casa, no início deste mês. "A Capital vai ferver esses dias ok, então todos nós sabemos que esses pilantras (referindo-se aos rivais) pegam qualquer um. Vamos ter os meninos nas ruas daquele jeitão, ok? Pronto pra qualquer problema!".

Em outro vídeo compartilhado nas redes sociais, jovens também ostentavam armas de fogo. Com informações da Inteligência, a Polícia Militar agiu rápido e apreendeu dois adolescentes de 17 anos - com um revólver calibre 38 e uma pistola calibre 380 que apareciam nas imagens - no bairro Praia do Futuro, em Fortaleza, na última sexta-feira (24). Um deles já tinha seis passagens pela Polícia e o outro, quase três vezes mais, 17 passagens.

A Secretaria da Segurança afirmou, em nota, que "investiga imagens divulgadas na internet com homens armados e com mensagens de apologia ao crime, no intuito de identificar e capturar os autores das gravações". E destacou ainda "que informações sobre investigações em andamento são reservadas aos setores de inteligência".

César Barreira analisa que a gravação de vídeos e a divulgação de 'salves' por parte das facções "não é uma afronta somente ao Estado, é uma postura de definição de poder. Isso não é uma coisa nova, a gente sempre teve essa ostentação de armas e da visibilidade de homicídios, principalmente aqueles que têm a marca da crueldade".

Mortes

Alguns homicídios aquecem ainda mais a guerra entre as facções. De acordo com uma fonte da Inteligência da PM, a morte de Samuel Souza Salomão, de 31 anos, teria causado a revolta de uma facção, na qual ele seria um conselheiro. O homem foi assassinado a tiros dentro de uma oficina no bairro da Messejana, em Fortaleza, no último dia 22. O crime foi cometido por dois homens que trafegavam em uma motocicleta.

Samuel tinha passagens pela Polícia por roubo e homicídio, com condenações na Justiça, e tinha progredido para o regime aberto no ano passado. Em um dos processos que figura como acusado, ele e comparsas roubaram o veículo, a arma de fogo e outros pertences pessoais de um delegado da Polícia Civil, que chegou a ser agredido pelos assaltantes, no bairro Parque Iracema, em 2010.

Devido ao assassinato de Samuel Salomão, a quadrilha emitiu novos 'salves' para determinar a morte de rivais. "Iremos vingar nossos irmãos que tombaram (sic) em nossa luta, essa é a oportunidade que temos, eles vão ter que pagar", diz um comunicado. "Todos aqueles que não cumprir será (sic) levado a um quadro e lá poderá ser decretado no online, por falta de lealdade com a organização", ameaça outro 'salve'.

Ao atender os 'salves', criminosos mataram o surfista Luiz Felipe Brito da Costa, 18, sem antecedentes criminais, na comunidade do Luxou, na Praia do Futuro, um dia depois da morte na Messejana - 23 de abril. Para a Polícia, três homens que foram presos disseram que tinham que cumprir a ordem de matar rivais e escolheram a vítima de forma aleatória, porque ela estava em uma região dominada pelo CV.

Anderson Alexandre Dantas da Silva, 19, Edilson Clemer Rebolças Silva, 26, e Roberto Silva Lopes Filho, 21, foram presos em flagrante, horas após o assassinato. Na última segunda-feira (27), uma juíza da Vara de Audiências de Custódia transformou as prisões em flagrante em prisões preventivas.

Número de homicídios cresceu 90%, nos 22 primeiros dias de abril deste ano, no Ceará, em comparação com igual período de 2019. No acumulado do ano, o crescimento do índice já é de 96%. A maioria dos crimes está ligada à guerra entre duas facções criminosas.


Foto: Kid Júnior

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