SALVADOR @ Famílias ocupam prédio inacabado e criam regras de convivência - Observador Independente

BAHIA

5 de mayo de 2018

SALVADOR @ Famílias ocupam prédio inacabado e criam regras de convivência

Prédio no Stiep teria 20 andares, mas a construção parou no quinto após construtora falir 
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)


Prédio no Stiep teria 20 andares, mas a construção parou no quinto após construtora falir.


Em um prédio inacabado, moram 72 famílias. Foi o que sobrou da construção do edifício de luxo Atlantic Beach, ao lado do antigo hotel Tulip Inn, no Stiep, próximo ao Centro de Convenções

Os “donos”, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), pagam uma taxa mensal de R$ 30 para que não haja gambiarras e para que as divisórias dos apartamentos sejam de bloco. Também é proibido armazenar materiais recicláveis.


“A taxa é um valor simbólico para a manutenção do prédio. A tragédia de São Paulo só reforçou que agimos corretamente com a prevenção”, diz a cabeleireira Inalva Batista Lopes, 50 anos, uma das líderes do grupo, fazendo referência ao incêndio e desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no dia 1º deste mês, no Largo do Paissandu, no Centro de São Paulo. A tragédia deixou um morto e cinco possíveis desaparecidos.
Minha casa Moradores dizem que evitam gambiarras e proíbem material reciclável, mas roupas são vistas penduradas pelo prédio no Stiep, próximo ao Centro de Convenções (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)


Desempregada, Inalva não podia mais pagar quase R$ 600 de aluguel na Boca do Rio e, em 16 de janeiro de 2017, ela chegou com as duas filhas à ocupação, que já existia desde 16 de dezembro de 2015, quando famílias conviviam em vãos abertos e compartilhavam água e luz com inúmeras ligações clandestinas, além de uma horta e cozinha comunitárias. Estima-se que o prédio esteja abandonado há 20 anos.

Serviços

A cabeleireira conta que todos concordaram em pagar os R$ 30. Ainda segunda ela, a manutenção do prédio é feita por três equipes formadas por eletricistas, encanadores e pedreiros. “Substituímos aquele emaranhado de fios por instalações comuns nas casas residenciais, com o uso de disjuntores”, explica um dos eletricistas Jackson Pereira Brito, 55, um dos primeiros a ocupar o prédio.
Sem divisórias de plástico Com R$ 30 de ‘taxa de condomínio’ mensal, paredes são erguidas com blocos para separar os apartamentos (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)


Um fio geral é ligado a um poste de iluminação pública, que, por sua vez, distribui energia para o prédio. Nas lâmpadas externas, há até sensores, para economizar luz - que ainda não é paga porque os moradores pediram e aguardam a regulação do serviço pela Coelba. A empresa informou que a situação é irregular. No caso da água, há uma tubulação que distribui a água do quinto andar para o restante do prédio.

Segundo Jackson, o medo do que aconteceu com o edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, chegou a ser realidade logo no início. “Vivíamos com medo de uma tragédia. Alguns que passaram por aqui já tiveram a terrível experiência de o prédio ocupado pegar fogo por um curto-circuito ou vela acesa. Alguns moradores são catadores de lixo e guardam o que recolhem na rua numa área afastada do prédio”, relata o eletricista.

O prédio foi projetado para mais de 20 andares, mas a obra parou ainda na alvenaria do quinto andar. Segundo os integrantes do MTST, a construtora teria falido e um grupo de pessoas entrou na Justiça para reintegração de posse. “Sabemos que estamos brigando com gente grande, afinal, aqui é uma área nobre, mas por que não se apossaram antes do prédio? Vamos lutar até o fim”, disse Inalva, que garante que vizinhos se sentem tranquilos, cumprimentam os moradores do prédio e trazem doações.

Sobre a reintegração, a primeira audiência aconteceu no dia 20 de março deste ano, na 5ª Vara Cível e Comercial do Fórum Ruy Barbosa. Os integrantes foram representados por um defensor público. “O juiz decidiu a nosso favor”, comentou Inalva. Como a decisão é de primeira instância, ainda cabe recurso no Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA).
 Além dos apartamentos, famílias improvisaram uma venda, para comercializar produtos básicos, como alimentos (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)



“Mas estamos esperançosos para vencermos mais uma batalha, pois nosso plano é colocar uma fachada decente, piscina, garagens, salão de jogos, uma moradia decente, porque não somos piores que ninguém”, disse Inalva.

Carlos Gomes

No centro da capital, um prédio de 18 andares, também abandonado, foi desocupado há seis anos. Ele fica na Rua Carlos Gomes antes da entrada do Largos dos Aflitos.

Assim como o Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, o edifício, apelidado de Carandiru de Salvador, pegou fogo duas vezes. “Houve dois incêndios provocados por curto-circuito em gambiarras. As chamas começaram nos primeiros andares e foram debeladas pelos próprios moradores. Foi um terror. Vivíamos com medo, mas não tinha jeito”, contou uma ex-moradora, que lembra da taxa de até R$ 30 e do aluguel de R$ 100. Segundo ela, eram 280 famílias, entre mulheres, idosos e crianças. “Era gente de bem, mas também tinha usuários de droga e ladrões, todos no mesmo lugar, separados apenas por divisórias de madeirite ou papelão”, relatou.


correio24Horas

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